04/05/2010

PAIXÃO FLAMANTE
Chico Alencar*

No princípio, quando comecei a me ligar em símbolos, veio o Flamengo. Recém desmamado, o fascínio estava na garrafa de leite colocada na porta de casa, na Tijuca, e no grito do leiteiro, anunciando a manhã: “Mengo, tu é o maior!”.

Depois foi o rádio, com as conquistas de Henrique, Dida e Babá, que dormiam sob minha cama na caixinha de botões. O craque era Foguete, eterno ‘aspirante’ na vida real. Saindo da meninice, transformei o meião rubro-negro em bandeirola no meu primeiro Fla X Flu ao vivo, no Maraca com 183 mil pagantes, em 1963: fomos campeões.

Antes de Ghandi, Mandela e Che, meu herói foi Jaime de Carvalho com sua charanga, a defender com marchinhas de carnaval e uma girafa (“É o maior”) a ‘causa’ vermelha e preta. Vi Zico bailar desde os juvenis e acompanhei a elegância de Júnior, de “Capacete” a “Maestro”. Homem feito, chorei com o Mundial em Tóquio: o velho leiteiro da minha infância voltou, no berro que ecoou em Liverpool, na Baixada e nas grimpas dos morros: ‘Mengooo”. Agora, ainda tentando, com tantos, fazer dessa vergonha um país, e vendo o futebol tão mercantilizado, persiste o orgulho pela “nação” que humaniza o cimento frio da arquibancada e canta, em coro afinado e sem ensaio: “Ó meu Mengão, eu gosto de você…” Até o mais mercenário dos atletas se comove.

Todo dia dou graças a Deus pelo dom da vida. E nas horas mais gostosas dela, entre amigos queridos e filhos muito amados (todos eles livremente rubro-negros), confesso que “teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo”. Meu velho amigo João Bosco gravou o hino, com sua privilegiada voz e seu impecável violão, no tom que ele merece: de samba, cantata, prece.

Chico Alencar, professor e deputado federal (PSOL), é católico, apostólico, carioca e flamenguista

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